segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Apelidar arenas causa prejuízos aos clubes

POR ROBERTO MAIA
Difícil imaginar que o icônico Maracanã um dia possa 
ser chamado por outro nome (Foto: Pixabay)

Tempos atrás falei nesse espaço sobre uma estranha mania brasileira de dar apelidos aos estádios. Estou voltando ao assunto porque a cultura de dar nomes de empresas a arenas ainda não foi devidamente assimilada por aqui. Os chamados namings rights – direito de concessão de nome – são comuns na Europa, nos Estados Unidos e em alguns outros países do mundo, mas não emplacou no Brasil. 

A Copa do Mundo de 2014 deixou poucos legados e muitas dívidas, além de 12 arenas novinhas. Algumas delas conseguiram vender o naming right antes da crise econômica que atropelou o país. Casos das arenas da Bahia e Pernambuco, patrocinadas pela cervejaria Itaipava. Mas será que a empresa em questão está satisfeita com o alto investimento? Tenho minhas dúvidas. Afinal, nunca vi ninguém chamando ambas pelo nome oficial: Itaipava Arena Fonte Nova e Itaipava Arena Pernambuco, respectivamente. Nem torcedores e principalmente a imprensa. 

Outro exemplo é o da arena Allianz Parque do Palmeiras, patrocinada por uma das maiores seguradoras do mundo. Praticamente nenhum órgão de imprensa chama o estádio palmeirense pelo nome. Nas transmissões da TV Globo, SportTV e das emissoras de rádio os narradores chamam a casa do Verdão de Arena Palmeiras. Alguns ainda se referem ao estádio como Parque Antártica. Aliás, esse sim um naming right que surgiu sem querer e deu muito certo para a cervejaria, porém não beneficiou financeiramente o clube.

Allianz Parque: ninguém chama o estádio do Palmeiras pelo nome 
que custou milhões à seguradora (Foto: Allianz Parque/Divulgação)

Acredito que isso ainda ocorra porque os departamentos comerciais de televisões, rádios e grandes jornais e revistas acham que devem receber para pronunciar ou escrever o nome de uma empresa durante as transmissões e cobertura de uma partida de futebol. Trabalhei em várias redações e sei que essa sempre foi uma norma vinda “de cima”. Muito tempo se passou e nada mudou. É necessário evoluir.

Rara exceção é o jornalista e apresentador Milton Neves, que entende como ninguém desse negócio de ganhar dinheiro com publicidade e merchandising. Em seus programas na rádio e TV Bandeirantes ele menciona os nomes das empresas que investem muito no futebol.

É necessário entender que manter uma arena custa muito caro e a receita dos namings rights é essencial para garantir o conforto dos torcedores e também da imprensa, que agora dispõe de infraestrutura adequada e espaços amplos e modernos para realizar o trabalho com mais qualidade e segurança.

Palco da abertura da Copa 2014, a arena do Corinthians 
é chamada de Itaquerão por parte da midia (Foto: Tino Simões)

Dirigentes do Corinthians reclamam que esse é o principal motivo pelo qual não conseguem comercializar o naming right da arena de Itaquera. Estão apenas parcialmente certos. O fato é que perderam o bonde da história. O momento mais adequado para ter conseguido um patrocinador para dar nome à arena foi antes do início da Copa do Mundo de 2014. O estádio corinthiano foi palco da abertura e de outros cinco jogos. Depois, muita coisa mudou. A economia do mundo enfraqueceu, os investimentos minguaram e os escândalos das operações contra a corrupção envolvendo a construtora Odebrecht pioraram as coisas.

Aqui no Brasil, desde sempre, os estádios tiveram nomes de pessoas importantes para os clubes ou cidades. E, ato contínuo, logo ganham um apelido. Pois vejamos o caso do estádio mais emblemático do País, o Mário Filho, ou Maracanã como ele é conhecido. Ou, ainda, simplesmente Maraca. Será que algum dia ele será reconhecido por um naming right. Sinceramente duvido. Como ele temos o Pacaembu, o Mineirão, o Morumbi, o Castelão, o Serra Dourada, o Mané Garrincha, o Arruda, o Albertão, o Rei Pelé, o Pinheirão, o Olímpico, o Beira-Rio e muitos outros. 

Está na hora de mudar isso. Não podemos continuar dando apelidos para as arenas e dando prejuízos enormes aos times de coração.

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