quinta-feira, 16 de abril de 2020

Quarentena sem futebol deixa tudo ainda mais difícil

POR ROBERTO MAIA

A Turma do Hidrante se reúne antes de todos os jogos do Timão para confraternizar com churrasco e muita cerveja (Foto: Reprodução/Facebook)

Após um mês de isolamento domiciliar a ansiedade aumenta proporcionalmente ao crescimento do número de infectados pelo novo coronavírus (Covid-19). O Ministério da Saúde revisou os números e anunciou que o pico da pandemia no Brasil ocorrerá entre julho e agosto. A notícia me atingiu fortemente. Até porque imaginei que em maio o futebol brasileiro já estaria de volta. Agora tenho dúvida disso.

Para alguém como eu que adora futebol e com frequência vai aos estádios e não perde um jogo importante na televisão, a ausência da bola rolando causa um enorme vazio. No início da quarentena até que foi fácil. Muitos jogos antigos sendo reprisados ajudaram a suprir dependência. Mas, agora, me pergunto até quando isso vai. Tenho certeza que tal como eu estou me sentido, muitos e muitos outros torcedores estão passado pelo mesmo problema.

Futebol, churrasco, cerveja e muita resenha

Na chamada “Praça do Cabral”, em Artur Alvim, todos conhecem a “disciplina”: cada um leva um quilo de carne ou linguiça e a bebida que irá consumir 
(Foto: Reprodução/Facebook)
Conheço muitas pessoas que para elas um domingo de futebol é uma celebração, que vai muito além dos 90 minutos do jogo com a bola rolando. Uma tradição que cresceu em São Paulo são grupos de amigos que se reúnem em praças e ruas próximas aos estádios para confraternizarem com churrasco e muita cerveja.

O jogo acontece normalmente às 16h, mas antes das 10h da manhã já tem gente chegando e iniciando os preparativos da “festa”. Armar a churrasqueira, colocar as cervejas para gelar e arrumar o ambiente. Por volta do meio-dia, o grupo soma algumas dezenas de pessoas. Cantam o hino do clube, soltam rojões, comem e bebem muito. E a resenha corre solta até pouco antes da hora do início do jogo.

No final da partida, boa parte dos integrantes do churrasco ainda se reúne para comemorar ou lamentar o resultado. E, claro, beber mais algumas latinhas de cerveja enquanto esperam o trânsito fluir para então voltarem para suas casas.

Na segunda-feira, através dos grupos de WhatsApp, a discussão continua e os preparativos para o próximo churrasco têm início. E tudo funciona sem problemas. Todos já conhecem a chamada “disciplina”, ou seja, cada um leva um quilo de carne ou linguiça e a bebida que irá consumir. A liderança do grupo determina também quem serão os responsáveis por levar o gelo, o pão, o limão e a cachaça para a caipirinha.

Um amor inexplicável e difícil de entender

Para muitos torcedores, acompanhar o time do coração faz parte de uma rotina da qual não conseguem viver sem (Foto: Daniel Augusto Jr./Ag. Corinthians)
O amor pelo time de coração leva os torcedores a aventuras inimagináveis por aqueles que não levam o futebol tão à sério. Os mais fanáticos acompanham o time por todas as partes do Brasil e até do exterior. E nem sempre são integrantes de torcidas organizadas, que já dominam a logística das viagens para apoiar o time. São pessoas comuns que sozinhas ou na companhia de mais alguns amigos dividem as despesas de um carro com destinos a cidades próximas ou bem distantes. Outros preferem comprar passagem de avião, enquanto quem não pode gastar muito encara horas e horas a bordo de ônibus de linha mesmo.

Muita gente acha isso uma loucura e chamam esses torcedores de fanáticos, loucos, irresponsáveis, etc. Porém, para essas pessoas acompanhar o time é parte da vida. Uma rotina da qual não conseguem viver sem.

Para finalizar, lembro de um figurão que há alguns anos deu um grande golpe no mercado, lesando financeiramente muita gente. O sujeito era dono de uma operadora de viagens das grandes, algo como é a CVC atualmente. Do dia para noite, a empresa parou de funcionar deixando os muitos clientes desamparados, sem as viagens adquiridas e sem o dinheiro gasto. Quando a polícia entrou no jogo o sujeito já estava longe. Sua prisão foi decretada e ele considerado foragido.

Alguns meses depois, em uma final de campeonato entre o Corinthians e o São Paulo em um Morumbi abarrotado de torcedores, encontrei o cidadão com óculos escuros, boné e a camisa do seu time. Encostei nele e falei: “você está correndo o risco de ser preso e vem ao estádio assistir ao jogo”. A resposta dele: “Eu sei, mas não consegui não vir. Eu precisava estar aqui hoje”.

Concluindo. Ele não foi preso, continuou foragido até ninguém mais lembrar dele e de quebra saiu feliz do estádio porque o seu time foi campeão.
 
ROBERTO MAIA É JORNALISTA, CRONISTA ESPORTIVO, EDITOR DA REVISTA QUAL VIAGEM E DO PORTAL TRAVELPEDIA.COM.BR

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