quinta-feira, 17 de junho de 2021

CLUBES ANUNCIAM INTENÇÃO DE CRIAR UMA LIGA. COMO DIRIA SÃO TOMÉ: SÓ ACREDITO VENDO!

 POR ROBERTO MAIA

Clubes pedem alteração estatutária na CBF que dê maior participação nas decisões institucionais e na gestão. (Foto: Lucas Figueiredo/CBF)

Ditado muito comum na cultura popular diz “sou como São Tomé, só acredito vendo.”  Pois eu estou como o apóstolo de Cristo, que somente acreditou na ressureição de Jesus após vê-lo e tocá-lo. Não consigo acreditar que os clubes da Série A do Campeonato Brasileiro cumpram a promessa de fundar uma liga independente para organizar o Brasileirão já a partir do próximo ano. O documento de intensão tem como signatários 19 clubes e foi entregue à direção da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Apenas o Sport não assinou por estar sem presidente, porém, em nota, o clube pernambucano garantiu ser favorável e que oficializará sua adesão o mais breve possível.

Na minha opinião os clubes estão aproveitando o momento de fragilidade da CBF, que afastou o presidente Rogério Caboclo por causa de denúncia de assédio sexual e moral, para conseguirem algumas vantagens. Pleito que considero legítimo, afinal os clubes são os grandes protagonistas do futebol e devem participar das decisões tomadas pela Confederação. Tanto que na carta mencionam como motivos “diversos acontecimentos que vêm se acumulando ao longo dos anos e que revelam um distanciamento total e absoluto entre os anseios dos clubes que dão suporte ao futebol profissional brasileiro e a forma como que é gerida a CBF.”

Os clubes pedem a imediata alteração estatutária na CBF que dê maior participação a eles nas decisões institucionais e na gestão. Querem igualdade com as federações no processo eleitoral para escolha do presidente e vice da entidade. Atualmente, os votos de federações e clubes não têm o mesmo peso. Nada mais justo, visto que os votos das 27 federações têm peso 3, enquanto os clubes da Série A têm peso 2 e os da Série B peso 1.

Também pedem o fim dos requisitos mínimos para inscrição das chapas concorrentes à eleição da CBF, abolindo-se a necessidade de apoio de oito federações e cinco clubes. Querem que para o lançamento de chapas baste o apoio ao menos 13 eleitores, independentemente de serem clubes ou federações.

Clubes da Série A anunciam intenção de criar uma liga para organizar o Brasileirão já em 2022. (Foto: Lucas Figueiredo/CBF)

Concordo com as reivindicações, porém, tal como São Tomé ainda não acredito que irão adiante. O motivo da minha descrença é a última tentativa dos clubes de assumirem o protagonismo no gerenciamento do Brasileirão. Foi em 1987, quando treze clubes fundaram o Clube dos 13. Inicialmente formado por Atlético-MG, Bahia, Botafogo, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Internacional, Palmeiras, Santos, São Paulo e Vasco, o grupo chegou a ter 20 membros.

O motivo da criação era tão legítimo como o de agora. Os clubes associados adquiriram maior poder em negociações coletivas, principalmente na comercialização dos direitos de transmissão dos jogos. O Clube dos 13 assumiu a responsabilidade pela organização do Campeonato Brasileiro daquele ano, que foi disputado com o nome de Copa União e teve o Flamengo como campeão.

Tudo parecia ir bem até que a CBF decidiu ir contra a competição e realizou um campeonato paralelo que ficou conhecido como Módulo Amarelo, que teve final entre Sport e Guarani com o time de Recife sagrando-se campeão.

A CBF bem que tentou realizar um quadrangular entre os times finalistas dos dois campeonatos para decidir quem seria o verdadeiro campeão de 1987. O torneio não foi realizado por discordâncias e o caso foi parar na Justiça. Muitos anos depois o Supremo Tribunal Federal (STF) entendeu que o Sport é o único campeão brasileiro daquele ano.

O tempo passou e a liga brasileira de clubes nunca chegou a ser criada. Desprestigiado, o Clube dos 13 foi perdendo força até que, em 2011, ele se desintegrou após a saída do Corinthians, que resolveu conversar diretamente com a Globo os seus direitos de transmissão.

ROBERTO MAIA É JORNALISTA, CRONISTA ESPORTIVO, EDITOR DA REVISTA QUAL VIAGEM E PUBLISHER DO PORTAL TRAVELPEDIA.COM.BR

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