Por
Roberto Maia
Gaviões
da Fiel protesta e exige liberdade de expressão aos
torcedores
(Foto: André Lucas Almeida/Facebook Jornalistas Livres)
A
torcida organizada Gaviões da Fiel, que tantas vezes foi criticada por atos de
violência, volta a dar exemplo ao se manifestar contra problemas ligados ao
futebol e também à sociedade. No clássico do último domingo entre Corinthians e
São Paulo, na arena de Itaquera, exibiu faixas protestando contra a
Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e Federação Paulista de Futebol (FPF)
- "CBF, FPF a vergonha do futebol" -, Rede Globo – “Futebol refém da
Rede Globo” - e sobre o escândalo da merenda escolar, que atinge o deputado
estadual Fernando Capez e o governo paulista de Geraldo Alckmin (PSDB) – “quem
vai punir o ladrão de merenda?”
Mesmo
amparada pela Constituição Federal, que permite a liberdade de expressão, o árbitro
da partida Luiz Flávio de Oliveira paralisou o jogo e exigiu que o zagueiro
Felipe, capitão do Corinthians, se dirigisse até os torcedores para pedir que
as faixas fossem retiradas. Temendo punição ou por desconhecimento dos seus
direitos e dos torcedores, o atleta foi até a torcida, pediu, mas, felizmente,
não foi atendido. Por sua vez, a Polícia Militar, que no jogo anterior entrou
em confronto com os torcedores por causa do mesmo motivo, não agiu desta vez.
Teria entendido que a manifestação era legítima? Só que não! Segundo o árbitro
registrou na súmula, a comandante do policiamento, a tenente Letícia, não
retirou as faixas “por motivo de segurança da partida e do público”. Que pena,
até parece que voltamos aos anos duros da ditadura militar de triste lembrança.
Lembro
que no ano passado, torcedores do Corinthians já foram obrigados a retirar da
sua arena uma faixa contra a arbitragem do paraguaio Carlos Amarilla que
eliminou o Timão na Libertadores de 2013.
Inteligentemente,
a Gaviões tratou de não infringir o Artigo 13-A, inciso IV, do Estatuto de
Defesa do Torcedor, que diz ser proibido “portar ou ostentar cartazes,
bandeiras, símbolos ou outros sinais com mensagens ofensivas, inclusive de
caráter racista ou xenófobo”. Até agora, nenhuma das mensagens teve cunho
ofensivo, muito menos de caráter racista ou xenófobo. Muito pelo contrário. A
nossa Constituição, em seu Artigo 5, diz que “é livre a expressão da atividade
intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de
censura ou licença”. Precisa dizer mais
alguma coisa?
Em
nota oficial, a Gaviões da Fiel questionou em qual momento teria infringido o
tal Artigo 13-A; de quem partiu a ordem para que invadissem as arquibancadas e
apreendessem as faixas; e, principalmente, quando se adentra um estádio, perde-se
os direitos constituintes?
Quando
eu disse no início desse texto que a Gaviões voltou a dar exemplo de
engajamento político, estava me referindo ao ano de 1979, quando em um jogo no
Morumbi a torcida ergueu faixa pedindo “Anistia ampla, geral e irrestrita”. Naquela
época, manifestações desse tipo eram evitadas porque havia temor pela repressão.
Talvez
os mais jovens não saibam, mas a torcida Gaviões da Fiel foi fundada, em 1969, por
um grupo de jovens torcedores com o propósito de derrubar o então presidente do
Corinthians, Wadih Helu. De forma ditatorial, o mandatário pagava para que
pugilistas agredisse os torcedores organizados que ousavam se manifestar.
Importante lembrar que naquela época o Brasil vivia o auge da ditadura militar.
Cada vez mais fortes e liderados por pessoas inteligentes e politizadas, os
Gaviões começaram a fiscalizar a diretoria do clube ao mesmo tempo em que agiam
nas arquibancadas pela redemocratização do país.
E,
passados quase 47 anos, a Gaviões da Fiel – maior torcida organizada do país - volta
a combater a censura e a repressão ao defender a liberdade de expressão, que
deveria ser regra em um país democrático. Tomara essa atitude seja copiada por torcidas
organizadas de outros times. E que as brigas e emboscadas sejam colocadas de
lado e a força popular representada por elas seja colocada a serviço dos
torcedores e do Brasil.

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