sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Gaviões da Fiel protestam e Constituição garante liberdade de expressão aos torcedores

Por Roberto Maia

Gaviões da Fiel protesta e exige liberdade de expressão aos torcedores 
(Foto: André Lucas Almeida/Facebook Jornalistas Livres)

A torcida organizada Gaviões da Fiel, que tantas vezes foi criticada por atos de violência, volta a dar exemplo ao se manifestar contra problemas ligados ao futebol e também à sociedade. No clássico do último domingo entre Corinthians e São Paulo, na arena de Itaquera, exibiu faixas protestando contra a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e Federação Paulista de Futebol (FPF) - "CBF, FPF a vergonha do futebol" -, Rede Globo – “Futebol refém da Rede Globo” - e sobre o escândalo da merenda escolar, que atinge o deputado estadual Fernando Capez e o governo paulista de Geraldo Alckmin (PSDB) – “quem vai punir o ladrão de merenda?”

   Mesmo amparada pela Constituição Federal, que permite a liberdade de expressão, o árbitro da partida Luiz Flávio de Oliveira paralisou o jogo e exigiu que o zagueiro Felipe, capitão do Corinthians, se dirigisse até os torcedores para pedir que as faixas fossem retiradas. Temendo punição ou por desconhecimento dos seus direitos e dos torcedores, o atleta foi até a torcida, pediu, mas, felizmente, não foi atendido. Por sua vez, a Polícia Militar, que no jogo anterior entrou em confronto com os torcedores por causa do mesmo motivo, não agiu desta vez. Teria entendido que a manifestação era legítima? Só que não! Segundo o árbitro registrou na súmula, a comandante do policiamento, a tenente Letícia, não retirou as faixas “por motivo de segurança da partida e do público”. Que pena, até parece que voltamos aos anos duros da ditadura militar de triste lembrança.

   Lembro que no ano passado, torcedores do Corinthians já foram obrigados a retirar da sua arena uma faixa contra a arbitragem do paraguaio Carlos Amarilla que eliminou o Timão na Libertadores de 2013.

   Inteligentemente, a Gaviões tratou de não infringir o Artigo 13-A, inciso IV, do Estatuto de Defesa do Torcedor, que diz ser proibido “portar ou ostentar cartazes, bandeiras, símbolos ou outros sinais com mensagens ofensivas, inclusive de caráter racista ou xenófobo”. Até agora, nenhuma das mensagens teve cunho ofensivo, muito menos de caráter racista ou xenófobo. Muito pelo contrário. A nossa Constituição, em seu Artigo 5, diz que “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.  Precisa dizer mais alguma coisa?

   Em nota oficial, a Gaviões da Fiel questionou em qual momento teria infringido o tal Artigo 13-A; de quem partiu a ordem para que invadissem as arquibancadas e apreendessem as faixas; e, principalmente, quando se adentra um estádio, perde-se os direitos constituintes?

   Quando eu disse no início desse texto que a Gaviões voltou a dar exemplo de engajamento político, estava me referindo ao ano de 1979, quando em um jogo no Morumbi a torcida ergueu faixa pedindo “Anistia ampla, geral e irrestrita”. Naquela época, manifestações desse tipo eram evitadas porque havia temor pela repressão.
Talvez os mais jovens não saibam, mas a torcida Gaviões da Fiel foi fundada, em 1969, por um grupo de jovens torcedores com o propósito de derrubar o então presidente do Corinthians, Wadih Helu. De forma ditatorial, o mandatário pagava para que pugilistas agredisse os torcedores organizados que ousavam se manifestar. Importante lembrar que naquela época o Brasil vivia o auge da ditadura militar. Cada vez mais fortes e liderados por pessoas inteligentes e politizadas, os Gaviões começaram a fiscalizar a diretoria do clube ao mesmo tempo em que agiam nas arquibancadas pela redemocratização do país.

   E, passados quase 47 anos, a Gaviões da Fiel – maior torcida organizada do país - volta a combater a censura e a repressão ao defender a liberdade de expressão, que deveria ser regra em um país democrático. Tomara essa atitude seja copiada por torcidas organizadas de outros times. E que as brigas e emboscadas sejam colocadas de lado e a força popular representada por elas seja colocada a serviço dos torcedores e do Brasil.

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