quarta-feira, 12 de abril de 2017

Cenas de civilidade e selvageria no futebol

POR ROBERTO MAIA

Torcedores da Chape homenagearam os colombianos no jogo com
o Atlético Nacional (Foto: Sirli Freitas/Chapecoense/Divulgação)

Fato marcante nessa semana foi o jogo entre Chapecoense e Atlético Nacional da Colômbia, na Arena Condá, em Chapecó (SC). Antes do início da partida válida pela Recopa Sul-Americana foram realizadas uma série de homenagens e demonstrações de gratidão ao time colombiano, que abriu mão de disputar o título da Copa Sul-Americana após o trágico acidente aéreo com a equipe catarinense que vitimou 71 pessoas há pouco mais de quatro meses. A Chapecoense ficou com o título e a atitude do Atlético Nacional foi algo fora do comum no futebol mundial.
O jogo foi realizado na Arena Condá após um pedido do clube colombiano. As regras da Conmebol impedem a disputa de um jogo decisivo em um estádio com capacidade menor de 40 mil torcedores.

Antes da bola rolar, torcedores da Chapecoense realizaram caminhada do centro da cidade até a arena, que foi abraçada. Houve discursos dos dirigentes dos dois times e homenagens aos colombianos. Quatro dos seis sobreviventes do acidente – o jornalista Rafael Henzel e os jogadores Alan Ruschel, Jackson Follmann e Neto - entraram de mãos dadas e fizeram discursos de agradecimento. Bandeiras gigantes dos dois times foram abertas no gramado.

Rafael Henzel, Alan Ruschel, Jackson Follmann e Neto, 
sobreviventes da tragédia, fizeram discursos de agradecimento 
(Foto: Sirli Freitas/Chapecoense/Divulgação)

No jogo, a Chapecoense venceu o Atlético Nacional por 2 a 1. Certamente os torcedores de Chapecó serão acolhidos com o mesmo carinho na partida da volta, dia 10 de maio, no estádio Atanásio Girardot, em Medellín. Um exemplo que deveria atingir os corações e as mentes dos torcedores de todo o mundo. Só que não!

Dois dias depois do jogo da gratidão, em Chapecó, o Corinthians recebeu o Universidad do Chile em sua arena em Itaquera em jogo válido pela Copa Sul-Americana. E o que se viu foi um show de selvageria da torcida chilena. Mesmo antes do jogo começar os violentos torcedores depredaram a bilheteria do setor de visitantes, destruíram uma grade, uma tenda no acesso à arquibancada, banheiros e mais de 200 cadeiras.

O Corinthians anunciou que irá cobrar a La U pelos danos causados no estádio. Também deverá enviar um dossiê à Conmebol relatando os fatos lamentáveis ocorridos.  

Torcedores da Universidad do Chile depredaram o setor de 
visitantes da Arena Corinthians e mais de 200 cadeiras 

Mesmo isolados em um dos cantos da arena, os chilenos arremessavam os pedaços das cadeiras quebradas em direção à torcida do Corinthians e também aos policiais militares. Segundo a PM, a confusão teria tido início quando os chilenos tiveram apreendidos alguns sinalizadores e detido alguns torcedores. Em seguida, um grande grupo teria cercado os policiais na tentativa de resgatar os presos. Nesse momento teve início o confronto com a PM, que distribui cacetadas e tirou do local a maioria dos torcedores, deixando apenas os que foram considerados mais tranquilos. O saldo da confusão foi 26 torcedores chilenos presos e levados à delegacia na Ponte Rasa, próxima à arena.

Agora fico imaginando o que se passa na cabeça do promotor de justiça Paulo Castilho, autor da medida que impõe torcida única em São Paulo. Irá ele pedir à Conmebol a imposição de torcida única também nos jogos entre times da América do Sul? Claro que não, afinal essa é uma atitude que não está dentro das suas competências. Torcida única apenas mascara e empurra para longe dos estádios a violência dos torcedores.


E, diferentemente dos torcedores da Chapecoense que serão bem recebidos em Medellín, os corinthianos provavelmente serão recepcionados com violência em Santiago no jogo de volta, em maio. E, pior, podem querer “devolver” a depredação da sua arena com novas cenas lamentáveis para o futebol. E o ciclo vicioso continuará. Até quando?


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