POR
ROBERTO MAIA
![]() |
| No velho Maracanã os
torcedores assistiam aos jogos em pé, sem conforto, mas sempre com alegria (Foto: Arquivo Nacional) |
Desde a Copa de 2014 e com a chegada das modernas –
e caras – arenas ao Brasil, tenho ouvido muita reclamação através das mídias
sociais e também via imprensa esportiva sobre a elitização do futebol no País. De
maneira geral o que muita gente comenta é o afastamento dos torcedores de baixa
renda das praças esportivas, o que estaria aniquilando a verdadeira essência do
futebol brasileiro.
No passado também tivemos uma fase – décadas de 1950
a 1970 - em que grandes estádios foram construídos. Grandiosos, alguns até ganharam
apelidos superlativos como Mineirão, Castelão, Mangueirão, Albertão, Prudentão,
Morenão, etc. Eram comuns clássicos disputados com públicos superiores a 100
mil pessoas.
O Maracanã era a “joia da coroa” e motivo de inveja
mundial por causa dos seus 200 mil lugares. Os mais velhos certamente lembram
da antiga geral, espaço sem conforto algum onde os torcedores – chamados de “Geraldinos”
- assistiam aos jogos em pé, sem visão adequada do campo de jogo e pagando
ingressos de baixo custo. Mas os 30 mil lugares estavam sempre cheios de gente
alegre – muitos fantasiados – que demonstravam no semblante o amor que sentiam
pelos seus clubes de coração. As regras impostas pela Fifa e a reforma para
receber jogos do Mundial levaram à extinção da velha geral. O local ganhou
cadeiras e o espaço foi reduzido para 18 mil lugares.
![]() |
O
filme-documentário “Geraldinos” de Pedro Asbeg e Renato
Martins mostra a fase
romântica do futebol (Foto: Divulgação)
|
Em São Paulo, o Morumbi, com capacidade atual para
77 mil lugares, continua sendo o maior do Estado. Foi durante muito tempo o
maior estádio particular do mundo. Seu maior público registrado foi no segundo
jogo da final do Campeonato Paulista de 1977 entre Corinthians e Ponte Preta,
quando recebeu mais de 146 pagantes – fora os que entraram sem pagar. Foi
cotado para receber jogos da Copa, mas o plano de modernização não agradou aos
padrões da Fifa, que escolheu a moderna arena do Timão.
Apesar da grande capacidade, o São Paulo tem muita
dificuldade para manter o estádio rentável. Várias reformas foram feitas.
Camarotes, restaurantes, lojas e até academia foram construídos. Antes do
Allianz Parque era o maior espaço para grandes shows na cidade. Mas ainda
recebe muitos deles, oportunidade em que tem sua capacidade plena ocupada. Mas
sofre quando tem que mandar seus jogos lá. No atual Brasileirão, por exemplo, a
média de pagantes é de apenas 21,6 mil torcedores. E cobrando o ingresso com
valor mais baixo entre os times grandes paulistas. Enquanto seus torcedores
pagam R$ 25 em média, os palmeirenses têm que dispor de R$ 61 e os corinthianos
R$ 53. Apesar do menor custo, os rivais têm médias maiores de público: 36,6 mil
o Corinthians e 33,4 mil o Palmeiras.
![]() |
Torcedores
do Palmeiras pagam em média R$ 61 para
assistir jogos no Allianz Parque (Foto:
Divulgação)
|
Como então pensar em atrair de volta os torcedores
de menor renda aos estádios? Claro que o preço dos ingressos cobrados
atualmente limita e muito o acesso destes torcedores. Corinthians e Palmeiras
cobram caro e têm suas casas sempre quase cheias. O São Paulo cobra bem menos e
consegue ocupação média de apenas 32% da capacidade do estádio. E como explicar
a média de apenas 9,1 mil pagantes do Vitória da Bahia, que vende os ingressos
mais baratos entre os times que disputam a Série A – apenas R$ 17 em média?
Entendo que ao contrário do que muita gente imagina,
não basta ter muitos lugares cobrando ingressos a preços baixos. Nos clássicos
e decisões as arenas estariam lotadas, mas, e nos jogos com menor apelo em noites
de quartas-feiras às 21h45? Se estiver frio e chovendo então será prejuízo na
certa. O fato é que um conjunto de fatores afastam os torcedores de maneira
geral: a falta de dinheiro, o transporte público ruim, a violência que mata
torcedores apesar da hipocrisia da torcida única e a situação dos times dentro
do campeonato.
Essa é uma discussão que tem que existir e envolver
todos as partes no processo. Se é que existe ainda interesse em manter a
essência do nosso futebol. Caso contrário iremos apenas enxugar gelo enquanto
assistimos confortavelmente os jogos pela televisão.



Nenhum comentário:
Postar um comentário